Livro enxerga ‘Transa’, cultuado álbum de Caetano Veloso, sob a ótica do afeto

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Caetano Veloso sorri no show de 2023 em que reviveu o álbum ‘Transa’ (1972), cultuado disco do artista ora analisado em livro
Alex Woloch / Divulgação festival ‘Doce maravilha’
♫ CRÍTICA DE LIVRO
Título: O livro do disco – Transa – Caetano Veloso
Autor: Mateus Baldi
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Muito já foi escrito e falado sobre “Transa” (1972), álbum gravado por Caetano Veloso durante o exílio em Londres, em quatro sessões de estúdio que deram forma a um disco que se tornou cultuado nos últimos 20 anos, especialmente a partir da recepção calorosa do álbum “Cê” (2006), feito pelo cantor, compositor e músico baiano com atmosfera roqueira evocativa da vibe do LP londrino lançado no Brasil pela gravadora Philips em abril de 1972.
Em bom título da coleção “O livro do disco”, da editora Cobogó, a escritora carioca Mateus Baldi tenta ir além do discurso recorrente sobre “Transa” com narrativa que abarca inclusive o revival do álbum por Caetano em show de 2023.
Baldi enxerga “Transa” como um “disco-mapa” do Brasil, um mapa desenhado a partir dos afetos do artista. É a partir dessa ótica que a escritora – nutrida por alentada pesquisa para tese de mestrado defendida em 2023 – disseca “Transa”, diluindo na narrativa o faixa-a-faixa recorrente em títulos da coleção “O livro do disco”.
Disco Transa de Caetano Veloso é tema da coluna de Nelson Motta
A narrativa começa com Caetano ainda no Brasil, antes de partir em 1969 para o exílio europeu forçado pela ditadura. A rigor, o fugaz ponto de partida é 1958, ano em que João Gilberto (1931 – 2019) detonou a revolução sonora que ecoou na interiorana cidade baiana de Santo Amaro da Purificação (BA), terra natal de Caetano e bússola que ainda hoje parece orientar o baiano já octogenário.
Sem acesso a Caetano Veloso, a escritora recorreu à pesquisa em jornais e revistas da época – e também a entrevistas com personagens relevantes no álbum, como Jards Macalé (1943 – 2025), o baterista Tutty Moreno e a cantora Angela Ro Ro (1949 – 2025) – para traçar a rota que levou Caetano à gênese de “Transa”.
Capa de ‘O livro do disco – Transa – Caetano Veloso’, de Mateus Baldi
Divulgação / Editora Cobogó
Sem os rebuscamentos das dissertações acadêmicas, o texto de Mateus Baldi é fluente e organiza as informações e as ideias da autora com objetividade jornalística. Sob o prisma da narrativa, “O livro do disco – Transa – Caetano Veloso” soa como robusta reportagem sobre os meandros de um álbum que, como reforça Baldi, sempre esteve presente na trajetória de Caetano desde antes do culto gerado a partir da fase do cantor com a BandaCê.
Baldi caracteriza “Transa” como “amuleto” concebido por Caetano no exílio após uma visita ao Brasil. “(É um disco) feito com uma banda extraordinária, em interação total, (que) capturava a atmosfera londrina enquanto recuperava um Brasil, construindo para si um mapa acústico”.
“Transa”, cabe lembrar, foi orquestrado sob direção musical de Jards Macalé. O fato de ter entrevistado Macalé para o livro permite a Mateus Baldi reconstituir passos fundamentais na relação do artista com Caetano. Da mesma forma, o contato com Péricles Cavalcanti forneceu outras pistas para a escritora discorrer sobre o cotidiano de Caetano em Londres, já que Péricles viveu um tempo na capital da Inglaterra em exílio voluntário.
Teria sido de Péricles inclusive a sugestão para que o arranjo da música “Nine out of ten” incorporasse o reggae, ritmo jamaicano que começava a ganhar o mundo naquele início dos anos 1970, mas ainda não chegara ao Brasil.
O livro prende a atenção do leitor, entre detalhes da gravação no estúdio Chapell’s Recording Studios, descrições das faixas (às vezes sob ótica pessoal) e informações sobre as referências embutidas por Caetano nas músicas do álbum, sobretudo em “Triste Bahia”, música feita sobre poema barroco de Gregório de Mattos (1636 – 1696), além do relato de dissonâncias posteriores do artista com o baterista Áureo de Souza já em shows no Brasil.
Em essência, o livro sobre o disco “Transa” oferece bom painel sobre momento efervescente da discografia de Caetano Veloso em narrativa afetuosa sem, a rigor, acrescentar muito sobre um álbum já exaustivamente dissecado. Que venham livros sobre outros discos de Caetano Veloso!…
Capa de ‘Transa’, álbum lançado por Caetano Veloso em 1972
Reprodução

Fonte: G1 Entretenimento